Um novo(re)nascer
- Beth Venzon
- há 25 minutos
- 6 min de leitura
Em tempos de tantas mudanças e transformações no universo da moda, falar de Alta Costura acredito ser importante.
Com um número reduzido de marcas e desfiles, seu impacto neste século 21 continua sendo da experiência criativa, como um grande laboratório que vai muito além do seu momento de luxo extremo.

A Alta Costura (Haute Couture) surgiu em 1858 com Charles Frederick Worth incrementando o sistema da moda com peças sob medida, personalizadas e feitas por pessoas habilidosas com domínio técnico da excelência dos fazeres manuais elevados à perfeição. Tudo isso em plena era industrial, crescendo e movimentando as inovações e produção em escala.
Assistimos ao um século 20 com mudanças significativas em desfiles e coleções principalmente se lembrarmos dos criadores e criadoras que ousaram estar atentos a suas sensibilidades e percepções traduzindo momentos em criações que mudaram o conceito e os códigos do que seria esse espaço desejado por muitas marcas, com altíssimo investimento, muitas regras e restrição de participação.
A primeira geração de criadores deu origem às assinaturas de estilo que são mantidas vivas até hoje através da história, acervo, exposições, filmes, vídeos, enfim, narrativas de memórias cada vez mais presentes no contemporâneo. Dior, Chanel, Schiaparelli, Valentino, para citar alguns.
Diretores criativos assumiram algumas dessas marcas como Karl Lagerfeld e John Galliano nos anos de 1990 fazendo com que os códigos fossem revisitados, mas sob seus olhares e interpretações em um novo tempo. Temas e criatividade intensa, somados a teatralidade, elevando os desejos para com a Alta Costura entre sonho e encanto que impactaram desde as primeiras apresentações mudando direções e expandindo conceitos. Os desafios técnicos da excelência igualmente foram aprimorados pelas equipes dos ateliers sempre impecáveis.
Um grande espetáculo esperado a cada temporada ampliando a conexão com a marca. Uma transformação importante, nem sempre compreendida, mas fascinante e transformadora do conceito de alta costura para um novo tempo. Essas imagens com certeza fizeram parte da vida e alimentaram o imaginário de muitos de nós que amamos a moda.
168 anos depois do seu surgimento, A Alta Costura, tem elevado cada vez mais a beleza, a perfeição e a criação infinita da manualidade, da artesania, do fazer manual levando tudo a potência máxima. O que nem imaginamos nos é apresentado em efeitos e ou delicadezas mostrando que ainda tem muito a ser criado neste universo fascinante. Em tempos de alta tecnologia e Inteligência Artificial, a manualidade se intensifica, ampliando seu espaço e significado - se a alta Costura é um sinal que se estende para todo o sistema, como estamos observando.
A Maison Schiaparelli desde que Daniel Rosberry assumiu a criação nos apresenta universos oníricos e surreais com efeitos tão primorosos que olhar para cada look ou acessório uma única vez, não é possível perceber o detalhamento e o desenvolvimento de técnicas para atingir esses níveis estéticos apresentados.
Alta Costura é luxo, é savoir faire, é manter a beleza do manual, é heritage. Conhecemos cada vez mais as histórias das maisons através de coleções que resgatam momentos, temas e particulares de seus criadores. Mas também é preciso olhar o hoje, inovar e nos levar para um presente/futuro que possa ser instigante e provocador, por ser um espaço no próprio sistema que permita sonhar o infinito e quem sabe apresentar novos caminhos e desenvolvimentos muito além do que vamos assistindo.
Assistir aos desfiles desta temporada, com uma nova geração assumindo casas com décadas de existência, precisamos ter olhos atentos e sensibilidade para analisar e compreender a beleza das apresentações, entre cenários, coleções, estéticas, narrativas, comunicação. A emoção sempre será um caminho desejado ao transformar valorizando a essência, iniciando um novo tempo que gosto de chamar de (re) nascer, sempre lembrando o valor dos grandes mestres, mas sem a nostalgia de viver o ontem e sim o hoje.
E assim foi com a Maison Chanel por Mathieu Blazy: romantismo, leveza a partir de um olhar da natureza e a alma livre como um pássaro para voar em diferentes direções. múltiplas possibilidades e interpretações que na visão dele chamou de pausa como "algo mágico, algo que nos faça sonhar, algo poético, um momento de calma e tranquilidade, quase como uma manhã de domingo", nas cores, nos looks, nos acessórios, como a versão transparente de uma calça que lembrava o jeans e era organza, perfeição incrível, da clássica bolsa 2.55 que ela carregava, cujo único conteúdo era uma carta de amor bordada, ou nos botões delicados de pássaros, nos saltos com cogumelos, nos tecidos, nos efeitos como desejo de flutuar. Aliás o caminho das novas interpretações para os clássicos Channel tem sido recorrentes desde sua estreia ano passado desde as construções têxteis num refinamento absurdo, mesclando com texturas, volumes e movimentos, que são assinatura Blazy. E a delicadeza em personalizar ainda mais um projeto tão primoroso: as modelos foram convidadas a adicionar bordados personalizados às suas peças: uma inicial, um signo do zodíaco ou um coração até no bolso do blazer.
Foto: Vogue Runway
Gabrielle Chanel iniciou suas criações com elegância e desejo de liberdade expressos no vestir, antecipando o que seriam os tempos modernos da década de 1920. Um século depois Blazy apresenta e seduz a cada coleção mostrando beleza em tempo integral e novo tempo de Channel!
Jonatan Anderson sempre instigante e de uma certa forma provocante, vem atualizando os códigos da maison Dior atendo a história sim, mas com sua interpretação e assinatura. "Eu estava tentando entender o propósito (da Alta Costura), mas aí apliquei isso ao meu amor pelo trabalho artesanal e percebi: 'Bem, este é um artesanato em extinção. Então, como protegê-lo?' Você vai e vê alguém mostrando como construir um paletó inteiramente à mão, e depois vai ao ateliê e não há máquinas de costura, e você percebe por que as roupas podem ser mágicas." visão que cruza caminho com sua maior referência para Dior: o tempo de John Galliano “Quando eu estava na escola — até mesmo antes de ir para a escola — John era um herói para mim. Para mim, no mundo moderno, ele é Dior. Ele teve uma trajetória mais longa que o próprio Christian Dior.” como afirmou há poucos dias.
Foto: Vogue Runway
Todo esse universo e legado da marca se mescla ao olhar e conexões que Anderson desenvolve com arte e design. Uma exposição temporária (de uma semana) Dior e as criações da ceramista contemporânea Magdalene Odundo. Seus vasos meticulosamente feitos à mão, evocam a forma humana e se inspiram em diversas tradições artísticas. as peças combinam os significados e funções das tradições cerâmicas de diversas culturas e histórias, incluindo vasos áticos (Grécia), cerâmica do período Jōmon (Japão) e vasos da cultura Nupe (Nigéria). Solenes e elegantes ao mesmo tempo, algumas das suas peças sugerem movimento e dança, e outras fazem alusão aos corpos femininos. J. W.Anderson vai muito além das novas formas sempre reveladoras e impactantes e revela "Acho que há muito espaço para explorar na alta-costura como o tricô, e existem muitas maneiras diferentes de abordá-lo, especialmente quando se pega a matéria-prima, fia e tricota ao mesmo tempo".
Alessandro Michele, mudou a moda em 2016 em sua estreia para Gucci, não podemos nunca esquecer disso. Assinatura potente e um olhar de diretor para cenografia e espetáculo, e nesta coleção ele deu vazão aos seus instintos mais expressivos. Homenageia Valentino Garavani, resgata o valor do tempo, do cuidado do olhar com atenção , do admirar, do descobrir detalhes através do Kaiserpanorama, uma espécie de estetoscópio que antecedeu o cinema no século 19, como um espiar por janelas direcionando a atenção e foco, tão complexa e tão desejada em tempos contemporâneos. Michele passeou pelo tempo, mesclou referências de Poiret passando pelas diferentes décadas do século 20 e entregou uma coleção espetacular para um novo tempo com uma nova linguagem para a Maison Valentino, com maestria e sofisticação.
Estreia de Silvana Armani para Armani Privé, com sofisticação, elegância e temporalidades próprias da marca, mas com a leveza de um novo tempo, assumindo o seu protagonismo. Fluidez das formas, a beleza das cores e tonalidades, harmonia e a delicadeza dos acessórios pontuais, a transparência e uma alfaiataria suave e desejada. Aqui novamente uma Alta Costura direcionada para um cotidiano no sentido de ser vivida e não apenas espetáculo, como ela mesma afirmou.
Foto: Vogue Runway
Estreias lindas para um novo momento que se desenha muito importante!
Costumo dizer que o novo nem sempre é compreendido de imediato e assim como a Alta Costura, o tempo se torna necessário, assim como o cuidado da análise. Em 2026 o olhar de lupa se torna altamente necessário! Conhecimento e atenção do olhar na construção desse novo momento, muito mais desafiador e importante porque moda deve revelar essência através da estética das aparências!

Foto: Vogue Runway
Para finalizar, preciso dizer que amei o conselho de Galliano para Anderson: “quanto mais você ama a marca, mais ela lhe retribuirá”. Acredito que isso vale todos que criam!




































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