Valentino Garavani, um mestre muito além da cor Rosso Valentino
- Beth Venzon

- 26 de jan.
- 7 min de leitura
Atualizado: 27 de jan.

"A elegância é o equilíbrio entre proporção, emoção e surpresa"
Valentino
A moda revela momentos, tempos, pessoas que, acreditando em seus desejos, transformaram e desenharam jeitos e sistemas de acordo com suas percepções.
Acompanhei de perto um pouco dessa história. Na segunda metade do século 20, vimos a moda intensificar presença e se transformar rapidamente também.
A partida de Valentino Garavani, ao meu ver, provoca muitas camadas de reflexão e aqui convido vocês a me acompanharem pelos 03 momentos que considero importantes para análise. Vamos lá?
Um legado indiscutível feito de uma estética que pode ser dita atemporal, sob medida, com artesania e beleza absoluta.
As belíssimas criações de Valentino Garavani, que escolheu Roma para ser sua cidade, tornaram-se referência assim como o seu estilo determinado, confiante e fiel a seus conceitos em tudo no seu entorno. Os tecidos foram uma base importante no desenvolvimento de peças únicas. Sedutoras e encantadoras em tempo integral com detalhes preciosos de bordados, acabamentos, plumas, babados, drapeados, plissados fluidos desenhando movimentos elegantes como filme em tela cheia nos cinemas, sim, porque usar um vestido Valentino é uma beleza potencializada.

Flores entram em cena como um belíssimo jardim, principalmente de rosas, que se apresentavam ora estampadas, ora bordadas, ou esculpidas… sempre feitas por mãos habilidosas de uma equipe em sintonia fina com o criador, na vibração da excelência e entusiasmo de quem tem olhar refinado e observação extrema. Volumes delicados em grandes camadas ou esculturas efêmeras de vestidos e golas em sobreposições tem a leveza como expressão e o impacto com equilíbrio visual como seu significado.

A força das formas ora fluidas ora estruturadas com precisão e perfeição, seu olhar e seus estudos em Paris nos anos de 1950 na Chambre Syndicale de la Couture e o seu trabalho no ateliê de Haute Couture de Jean Dessès, inspirado pelo universo da estatuária grega, criou vestidos drapeados belíssimos na arte de envolver o corpo. Tudo isso levava a técnica do franzido a múltiplas direções como verdadeiras obras primas, que serão sua extensão e guia para sempre, na perfeição de suas criações, no desafio da elaboração dos materiais e na apresentação de todos seus eventos e desfiles. No seu jeito de ser, viver e se apresentar ao mundo. Disciplina da Haute Couture aplicada em todos os momentos de sua marca, elevando e levando a Itália para o mundo. Linhas puras e detalhes pontuais marcam suas coleções com narrativa elegante e sofisticação máxima.

Harmonia e perfeição foi a forma escolhida por esse mestre em suas criações.
O criador e sua paixão pela moda e a coragem de vencer desafios e fronteiras, fiel a seus conceitos transformou a elegância italiana em uma linguagem universal.
Vermelho foi sua cor e assinatura, marca depositada e protegida com uma fórmula cromática descrita como: uma mistura que calibra o 100% magenta, o 100% amarelo com apenas uns 10% de preto.

"Entre todas as cores usadas, ela me aparece única, isolada em seu esplendor. Nunca a esqueci. Acho que uma mulher vestida de vermelho é sempre deslumbrante; ela é a imagem perfeita de uma heroína."
Valentino Garavani
Soma-se ao seu cromatismo igualmente o branco com espaço importante em suas coleções principalmente quando apresentou em 1968 em Firenze, sua White collection, com imenso sucesso. O preto e branco são dupla presente em toda sua trajetória, assim como o rosa para destacar suas principais escolhas cromáticas.

Vale lembrar que seu "V" será apresentado na coleção de 1968 também, mais um código e imagem da marca. Florais, geométrico como poás e animal print, estão entre suas estampas, que nunca são nada óbvias ou convencionais. Transformação criativa em tempo integral.
As suas criações são narrativas poéticas de elegância entre formas, na qualidade extrema dos tecidos, cortes e linhas impecáveis, nas construções de alfaiataria perfeitas e únicas, esculpidas num imaginário que atravessou as décadas. Detalhes sempre imprescindíveis como as flores, laços, nervuras ou plissados sob a técnica plissé Soleil. O romantismo, mesclado ao estilo clássico e com toques de Barroco, pode ser considerada a linguagem de Valentino. Até porque Roma é a cidade com a força da expressão Clássica e também a Barroca do século 17. Vamos pensar nas telas de Caravaggio, suas cores, sua luz e emoção em cada detalhe e expressão ou no equilíbrio das formas da beleza Clássica. Tudo lembra Valentino.

A beleza construída com perfeição e traduzida em looks poderosos e eternos, estava presente em tudo que fazia. No seu jeito de ser, na decoração das de suas casas, nas louças e mesas preparadas com muita sofisticação e de forma natural. Um colecionista de porcelanas Meissen (desenvolvidas na Europa a partir de 1710 em Dresden), perfeccionista na mise en place (arte da mesa), encantos e detalhes que são sua extensão natural. Para ele a comida deve estar num prato bonito.
"A ideia do prato é uma criação muito próxima à preparação de um belíssimo vestido de noite, onde coloco flores com laço e babados, procuro algo para compor essa mesa que a torne mais refinada que uma mesa clássica."
Quem escolheu estudar e trabalhar em Paris, voltou para seu país e à Roma, ainda nos anos de 1950, e se organizou para ganhar o mundo. Beleza e perfeição são seus fios condutores. Sua estreia em passarelas será em Julho de 1962 na suntuosa Sala Bianca do Palazzo Pitti em Florença. Aplausos e muitos elogios que o levam a ser o primeiro criador italiano a ser capa da Vogue Francesa.
Interessante sua observação para o movimento dos anos 70 que o levou a escolher Nova York e o Estudio 54 para lançar a linha Viva Jeanswear em 1979. Com fotos de Bruce Weber essa linha jovem é ousada porque o denim não era um tecido do vocabulário de Valentino, por assim dizer, mas se tornou espaço de experimentação com o refinamento que sua marca exigia.

Desenhou e lançou o Prêt-à-Porter, ganhou reconhecimento da imprensa e nos anos 80 integrou o calendário de moda francesa para as coleções de Haute Couture. Conquistas que definiram seu caminho de sucesso. Sempre teve ao seu lado Giancarlo Giamemetti, um grande gestor acima de tudo. Juntos desenham estratégias, projetos e direções e escrevem a história da marca. Uma dupla de sucesso!
A sua despedida das passarelas foi em 2007 no mais elevado estilo Valentino, então com 75 anos, que além do inesquecível desfile com todos os looks na sua cor red Valentino, foram organizadas uma série de exposições e jantares e o lançamento de seu documentário icônico e livro Valentino: The Last Emperor.

"Um grande evento celebrando meus 45 anos de carreira; um momento mágico com imensa emoção e alegria pela amizade e consideração que o mundo todo expressou naquela ocasião" disse Valentino naquele dia, o mesmo carinho que recebeu em sua despedida a poucos dias.
Homenagens com mensagens e depoimentos emocionados lembrando suas criações extraordinárias, seu legado de beleza que será mantido em sua Fundação em Roma, inaugurada em 2016 (https://fondazionevg-gg.com/it)
A importância de um ciclo na moda que mudou os rumos de um sistema e ampliou a participação de novos criadores protagonistas de seus estilos que se apresentaram e mostraram ao mundo o design da moda italiana criando o "made in Italy", quando a França detinha a força como centro de estilo e de moda para o mundo.
Os anos de 1950 e 60 na Itália, mais precisamente na cidade de Roma, muitos foram os filmes que tiveram a cidade e o estilo de vida como cenário a ser mostrado ao mundo (os estúdios da Cinecittà + produções de Hollywood). La dolce vita, um conceito italiano, gerava fascínio e desejo como o novo ideal daqueles tempos. Um lugar que respira história, arquitetura desde os antigos romanos, suas belezas e períodos registrados em estilos como Renascimento e Barroco com grande força expressiva, entre outros. É a arte envolvendo todos os espaços.

Arte e cinema ampliam sua imagem mundialmente e a moda italiana está construindo seu caminho. E foi nesse lugar importante e fascinante que Valentino abriu as portas de sua casa de moda em 1959. Entre suas primeiras clientes está Lyz Taylor que gravou Cleópatra neste período, seguindo uma lista imensa de atrizes, personalidades que amavam as suas criações elegantes. Inclusive Jacqueline Kennedy que em 1968 encomendou seu vestido de noiva a Valentino para o casamento com Onassis, consolidando seu nome. Suas criações desfilavam em Roma, cidade da Alta Moda Italiana, ainda nos anos de 1960.
É importante lembrar que seu nome ganhou cada vez espaço levando as criações a patamares mais elevados.

Valentino foi um dos grandes protagonistas da moda italiana, ao lado de Laura Biagiotti, Mario Valentino, Gianni Versace, Krizia, Paola Fendi, Gianfranco Ferrè, Lila Shon, Giorgio Armani, Ottavio e Rosita Missoni, Franco Moschino e Luciano Soprani entre os principais criadores. Um grupo que acreditou em seus sonhos e levou o mundo todo a sonhar e perceber a importância do design de moda italiano. Cada qual com sua essência e estilo, mostrando a diversidade de linguagens estéticas desse país que passou com esses empreendedores criativos, a conquistar espaço no mercado mundial e competindo diretamente com a França, até então sendo a referência mundial de moda.

Uma grande mudança de cenários nos anos de 1980 e que nunca mais parou de crescer e ter espaço entre as marcas e os criadores mais relevantes no mundo, tanto em números de desempenho econômico, quanto potencial criativo e representatividade de marca desejada.
Deste grupo, apenas Paola Fendi ainda está conosco. Ao olharmos para a força expressiva de cada um deles nos anos de 1980 principalmente, sob um conceito de criador e criação que provocava, era disruptiva, tinha personalidade, nos convidava a sonhar na construção de suas assinaturas distintas do made in Italy, impulsionando a indústria e o setores que compõem este segmento e de mais nome surgirem formando as novas gerações que hoje ocupam diferentes lugares seja em suas marcas ou sendo diretores criativos para outras.
Por isso pode-se considerar de certa maneira o fim de uma era em que a moda deste país ecoou fortemente. Valentino e Giorgio Armani, que há poucos meses também partiu, nos mostraram que a forma como cada um apresentou seus conceitos em assinaturas potentes de perfeição, elegância e muita sofisticação onde criatividade, técnica e estética se encontram, com narrativas únicas que a eles pertencem em suas visões de mundo, assim como os principais nomes do grupo citado acima. Tempo de criadores livres em seus sonhos de encantamento e sedução nas passarelas de cada estação.
Encerro com esta frase dita semana passada por Pierpaolo Piccioli:
"Acredito que ele sempre tenha sido fiel à beleza, como proteção, como escudo, como pesquisa constante e pessoal. Aquele escudo e aquela proteção se tornaram uma forma de amor."







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